sábado, 13 de setembro de 2008

O Computador vai substituir o livro?

Desde o grande salto da história da humanidade, onde passamos da tradição oral para a linguagem escrita, nenhuma outra tecnologia da comunicação foi tão importante para a humanidade como a informática. Através dela, informações que antes demoravam a chegar até nós, hoje renova-se a cada instante e o conhecimento longínquo tanto no espaço quanto no tempo são a cada dia, mais acessíveis. O fato é que nem todos ainda hoje têm acesso a essas tecnologias e mesmo a mudança da tradição oral em linguagem escrita – essa primeira tecnologização que deu origem a um novo espaço mental - ainda não está ao acesso de todas as pessoas. E seja por problemas culturais, econômicos ou sociais, é visível que a alfabetização para todos ainda é um marco a ser atingido, particularmente em nossa sociedade.
O gosto pela leitura, seja no livro ou num espaço virtual da tela de um computador, ainda não foi internalizado amplamente em nossa cultura. Se a mudança de um espaço material para um espaço virtual causará efeitos em nossa mente causando uma nova ruptura sobre o uso da linguagem ainda não sabemos. Se os recursos audiovisuais vão melhorar os níveis de intelecção ou diminuir a capacidade de raciocínio, se vão ser uma constante e verdade, nas leituras ou não , ainda não sabemos. O que parece é que por questões de prazer ou necessidade o livro se modificará. Como uma constante em todas as coisas do mundo, sua mudança talvez mude a sua própria concepção atual e nessa poderá surgir um conceito que talvez seja bem diferente do conceito de livro atual.
No espaço do trabalho, em setores das burocracias de estado, como a justiça, deu-se um salto qualitativo na transformação dos processos do meio físico para o meio virtual e imensos volumes de papéis processuais , hoje podem ser apenas pequenas memórias digitais. Principalmente, no nosso direito, oriundo do modelo romano, geralmente cheio de meandros e prolixidades , o computador e seus recursos deram uma melhoria na agilização dos conflitos. Não é de hoje que mudanças como essa começam pelas vias do direito. Alega-se que um dos primeiros escritos não tinha função estética e sim prática como a segurança dos direitos de propriedade. No século XII um processo jurídico requeria, em média, a pele de uma dúzia de ovelhas para ser feito, um século mais tarde a quantidade de pergaminhos são muitas centenas mais. Hoje, devido ao volumes de informações e ao suporte econômico que possui esta vertente do saber, já vemos com freqüência códigos inteiros sendo oferecidos em cd-rom. Fato que é ainda raro para a literatura ,conhecimento muito ligado a estética, ao prazer, e relegado a segundo plano por algumas sociedades, e em geral as mais atrasadas e principalmente por causas financeiras.
Mas a mudança virá, e quando formos passado e história , onde víamos esculturas romanas tardias como o juízo final sendo retratado por um anjo segurando um livro, no lugar dele nossos descendentes verão um anjo que estará consultando um computador com os nomes de quem vai pra o céu ou inferno . O diabo que também antes aparecia na sua veste de letrado, aparecerá não como escrevente, mas como um arrojado operador de micro ,com um “laptop” de internet wireless na mão andando por aí a registrar as nossas falhas. E no futuro, nenhum pecado de última hora deixará de ser registrado por falta de sincronicidade na informação, tudo chegará instantaneamente via e-mail nas pastas dos nossos julgadores celestiais e acusadores infernais.
A interatividade com o leitor, com a narrativa através do computador será muito maior e permitirá ao leitor “entrar dentro do livro “ sair de sua realidade mais facilmente com os recursos de realidade virtual que hoje usam-se em jogos infantis e filmes. E na literatura infantil , onde autores como Monteiro Lobato usavam um pequeno trecho de leitura de transição entre o real e espaço mágico tudo se tornará simplificado e sairemos de nosso “Sitio” para um verdadeiro “reino das águas claras” mergulhando não no espelho d’água de um ribeirão mas no cristal líquido da tela de um computador.
Neste tempo ainda sobreviverá a relação nostálgica do livro com o leitor. Pois geralmente quando um novo costume se sobrepõe a outro, é natural que sobreviva nas pessoas o caráter nostálgico com relação ao ser antigo, numa tentativa de tornar presente algo que está ausente, um reencontro, um desejo idealizado pelo que nem sempre foi quando presente era. Este será talvez o lugar do livro com o passar do tempo, e mesmo as técnicas da informática poderão se valer de recursos que lembrem o comportamento e a atitude de quem lê um livro , como fazer movimentos de folhear página em vez de uma barra de rolagem ou um “link” e ainda usar sons para realçar estes recursos. Todavia nas profissões ligadas as letras sejam literárias, jurídicas etc. Nenhum profissional deixará de ter em seu gabinete como recurso e símbolo de sua erudição uma estante cheia de livros e coleções, mesmo que elas possam ser sintetizadas em minúsculas memórias de computador. Outros também dirão clichês como: livro não pifa, não gasta energia e é muito mais prático.
Assim, retirado o insuperável estado de arte que podem surgir tanto numa vertente quanto na outra e ter maior destaque , todavia refletindo os aspectos do nosso mundo atual, o computador(ou outro suporte digital de nome novo) deverá prevalecer sobre o livro.

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